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Respeitem vocês o nosso cabelo, ~kiridinhos~!

O cabelo da minha mãe é liso, do tipo escorrido, que não para nem grampo. O cabelo do meu pai é crespo, do tipo que se deixar, vira um black power de respeito. "Eu tinha 50% de chances... Adivinha se eu não puxei a parte ruim?". Essa, talvez, tenha sido uma das frases que eu mais repeti erroneamente na vida em tom de brincadeira. Mas o que eu já sofri com o meu cabelo não é nenhuma brincadeira, não.

Durante a minha adolescência, a escova progressiva estava no auge. Era difícil cruzar na escola com alguma garota que não fosse lisa, mesmo que quimicamente alisada. E na adolescência, o colégio é um ambiente que te influencia bastante. Você deve entender o que estou querendo dizer...
Já judiei muito dos meus fios: fiz progressiva em casa (que perigo!), em salões indicados pelas amigas, escovas de chocolate, japonesa, marroquina e um relaxamento que me custou uma grave irritação no couro cabeludo. Lembro-me de que em uma dessas tentativas de alcançar o "cabelo perfeito", fiquei três dias sem lavar os fios (e o rosto, porque não queria correr o risco de molhar a franja). Quando finalmente lavei e fui conferir o resultado no espelho.. PÃN! A química não tinha dado efeito. Meu cabelo continuava enrolado. Tinha gastado tempo, disposição e dinheiro à toa. Chorei descontroladamente.

É muito, muito difícil se desgarrar desses estereótipos de "cabelo ruim" e "cabelo bom", principalmente na adolescência. Não é fácil viajar com a galera e ter medo de entrar na piscina, porque seu cabelo vai enrolar depois disso (e o das suas amigas, não). Não é fácil ser dependente da chapinha. Não é fácil não se sentir confiante com o próprio cabelo. Não é fácil resistir à tentação de se enquadrar naquele grupo de amigas com cabelos impecavelmente lisos até a cintura ou escutar de alguém próximo que "você precisa dar um jeito nesse cabelo, porque não está mais dando". E eu não resisti. Pelo menos, não até o segundo ano da faculdade.

"Poucas pessoas sabem, mas esse sou eu, o cabelo
naturalmente cacheado da Isa. Prazer! Às vezes, sinto
saudade de dar às caras, mas hoje, pelo menos,
minha dona não tem mais vergonha de mim!"
Freeeeedom! Me libertei da chapinha, comprei cremes para ativar os cachos e troquei as escovas de cabelo pelos dedos das mãos. Amassei, botei pra cima, dei volume! Foi um ano em que me senti confiante e bonita com o meu próprio cabelo, sem ter que alisá-lo para isso. Os comentários, é claro, nunca pararam. "Que pena que seu cabelo arma no final do dia, né?". "Nossa, você é loira, mas tem cabelo ruim!". "Tá parecendo uma ovelha, Isa!". "Sabe aquele jogador, o Biro-Biro?". "E aí, cabelinho de miojo?". "Seu cabelo é ruim, mas, pelo menos, você é loira." (oi? Pois é. Aquele típico comentário infeliz e racista que a pessoa faz achando que é uma espécie de elogio. E acredite, eu já escutei isso mais de uma vez, de pessoas diferentes). "Cabelo ruim é assim mesmo, amiga. Ou está preso, ou está armado.". "Por que você não volta a alisar o cabelo?".

E foi o que eu fiz, depois de um ano usando, abusando e amando meus cachos - não muito definidos, um pouco armados, mas meus. Essa, porém, era a primeira vez que eu tomava essa decisão para agradar a mim mesma e a mais ninguém. Não vou ser hipócrita e dizer que os comentários maldosos, negativos e preconceituosos sobre meu cabelo não me atingiam nem um pouquinho. Porque me atingiam, sim! Eu nunca fui nem de longe a pessoa mais confiante da face da Terra. Se hoje, em tempos de transição capilar, já é difícil, imagina há uns cinco anos, quando os diferentes tipos de escovas progressivas estavam dominando o mercado estético, os salões de beleza e as cabeças das adolescentes?

Eu já tive muita vergonha do meu cabelo. Eu já o detestei com todas as minhas forças. Já tive medo de levar um fora daquele garoto por causa dos meus fios enrolados. Já gastei tubos de gel, já chorei em frente ao espelho, já saí da piscina e corri para o banheiro "fritar" os fios na "chapa" (porque é literalmente isso que acontece quando o seu cabelo está molhado). Acreditem, eu já me senti indigna de viver um amor de Verão - e de não Verão também - porque meu cabelo não era "bom" o bastante para isso. O garoto ia me achar feia depois do banho de mar.

Meu cabelo ~mais ou
menos~ como está hoje.
Você pode estar pensando: "mas quanta hipocrisia! Fala esse monte de coisa e continua com essa cabeleira lisa!". É verdade, eu continuo. Continuo porque eu me gosto assim. E é aí que está a grande sacada dessa história. Você pode ter cabelo liso, cacheado, crespo, com dreads, rosa, azul, laranja, curto, comprido, médio. Não importa! É uma decisão sua! Você pode ter o cabelo que quiser! Nunca se submeta a uma mudança - capilar ou não - para agradar os outros. Eu fui entender isso quase agora, depois de travar longas e cansativas batalhas com o meu cabelo natural. Eu já tinha bem uns 21 anos, já tinha alisado muito os fios para agradar mais os outros do que a mim mesma, mas esse momento de epifania chegou. Quando dei por mim, eu continuava usando chapinha, mas também não estava nem aí se eu fosse viajar e não pudesse levar nem o secador ou se eu saísse da piscina e meu cabelo enrolasse ou se eu tomasse chuva sem ter um prendedor ao meu alcance. E daí se meu cabelo enrolar? E daí se todo mundo reparar? E daí se o menino desistir de mim por causa disso? (Btw, me livraria de um belo babaca se isso acontecesse). E daí??? Quem disse que determinado tipo de cabelo é bonito, certo e aceitável e que qualquer outro tipo que não se enquadre aos "padrões" é feio, errado e inaceitável?

Não deixe de viver momentos incríveis por causa disso. Não deixe de viver! Eu já deixei, muitas vezes. Não faça como eu. Despenteie-se! Descabele-se! Alise-se! Cacheie-se! Alise-se e cacheie-se ao mesmo tempo! Faça o que tiver vontade e o que te deixa mais feliz. Só promete uma coisa? Faça por você e não por aquela pessoa que insiste em dizer que seu cabelo é "ruim". Isso nem existe!

E TENHO DITO!
Para resumir todo esse meu desabafo (que foi uma tentativa de dizer: "ei, não dê ouvidos como um dia eu dei. Você é linda!"), segue uma listinha bem prática:
- qualquer pessoa pode usar trança;
- tranças são lindas;
- qualquer pessoa pode usar rabo de cavalo, maria chiquinha, topetinho, o que for!;
- qualquer pessoa pode fazer chapinha, se quiser;
- qualquer pessoa pode fazer babyliss, se quiser;
- qualquer pessoa pode escolher não fazer nem chapinha nem babyliss nem secar o cabelo, se quiser;
- todo mundo tem bad hair day, até a Gisele Bündchen;
- ninguém pode classificar o seu cabelo como "bom" ou "ruim";
- "não é mais fácil" tem um certo tipo de cabelo. O mais fácil é ter o cabelo que você quer ter;
- todo cabelo é naturalmente lindo;
- nenhum cabelo precisa de salvação;
- o que precisa de salvação é esse preconceito todo que, ainda em 2015, algumas pessoas têm e insistem em disseminar por aí como se não fosse nada demais, disfarçado naquele ultrapassado discurso de "é a minha opinião, respeita".

Repito: respeitem vocês o nosso cabelo, ~kiridinhos~!

6 comentários:

  1. Texto maravilhoso, Isa! Você é demais!

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  2. Eu concordo em grau e em número com tudo oq vc falou Isa. Tudo! Delícia de post:)

    Vc é lindaq por dentro e por fora, somos lindas! :)

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  3. Esse texto definitivamente me ajudou muito a entender algo que martelava ha muito tempo na minha cabeça

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  4. Isa, seu cabelo fica mais lindo cacheado, minha opinião rsrs um grande beijo :*

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